A DOCÊNCIA
 
         
 
AS OFICINAS DE PINTURA E GRAFITE
"MENINOS DE ARTE"
 
De 1994 a 2001 Balzi realizou oficinas de arte-educação com mais de um milhar de adolescentes carentes do centro de São Paulo e da periferia de Santo André.
A eficiência da metodologia empregada deve-se à afinidade que ela tem com aspectos da vida cotidiana: a composição plástica com o sentido de ordem, a "pichação gráfica" (intervenção crítica sobre imagens dos meios de informação) com a capacidade de pensar e dialogar, etc.
A história, a metodologia e os resultados obtidos estão detalhados no livro "Meninos de Arte", editado no final de 2013 pela Editora Nova Alexandria.
 
 

 

“A capacidade de expressão subjetiva despertada nesses meninos faz-me realmente indagar por muitas das críticas que lhe coloquei e, apesar de sustentá-las, admito aqui a amplitude do fenômeno conhecido como “osmose”, pois, ainda que esses indivíduos estivessem sendo constantemente estimulados e, diga-se de passagem bem estimulados, o fato é que foram encontrados absolutamente crus, e o nível final de resultado-matéria atingido, tanto no plano puramente plástico como na extrema crítica social e “pessoal”, é excelente; embora o mestre sempre afirmasse que nós assumimos o aleatório. Ora, de que maneira esses trabalhos poderiam ser apenas aleatórios, se todos os momentos em que foram processados e gerados estiveram sob a regência constante de uma ideia clara quanto ao objetivo a ser alcançado?”

Dália Rosenthal, Artista Plástica,1996

 

 
 
Mural para o canal franco-alemão TV ARTE, 1996

 

 
 

A exposição “Balzi e os meninos de arte” traz múltiplas questões. Uma delas é justamente destacar como a educação dos adolescentes é a base para a construção de uma sociedade mais digna. Os exercícios e técnicas artísticas propostos no livro lançado junto com a mostra apontam que, mais do que formar artistas plásticos, o conhecimento e os debates sobre criações visuais contribuem para gerar cidadania e sensibilidade.
(...)
Nas oficinas ministradas pelo artista plástico argentino radicado no Brasil e com anos de residência na Espanha estão no respeito ao gesto pictórico de cada jovem. Existe no raciocínio das atividades programadas o respeito à linguagem de cada indivíduo.
(...)
Outra dimensão que a observação das obras de Balzi e os meninos traz está na gradual conscientização dos jovens e do próprio orientador das atividades de que um elemento basilar da criação artística está no progressivo conhecimento da distância entre aquilo que o artista deseja atingir e aquilo que a sua técnica e saber lhe permitem realizar.
Assim, sem cair na ditadura da palavra e do conceito que por muitas vezes ameaça dominar as artes plásticas contemporâneas, Balzi, como pintor e como professor,  e os meninos, como criadores e aprendizes se misturam. Os limites entre quem ensina e aprende se diluem e se interpenetram.
(...)

 

 
 
Gestualidade musical, 1999

 

 
 

“O que está sendo difícil para mim é explicar a relação cultural e social deste projeto. A mim interessa a imagem que evidencia o ato de pintar, pichar, borrar, cancelar, sublinhar, riscar, alterar, transformar, parodiar, satirizar, parafrasear...
O possível resultado estético-plástico, a “beleza” de uma imagem, tem para mim um valor secundário, pois é um aspecto muito relativo, pessoal, infelizmente elitista...
No entanto, não consigo desestimá-lo completamente. Continuo acreditando que ambos aspectos não podem ser separados sem o risco de que, pelo menos, um dos dois morra.
Da mesma maneira que não posso separar neste projeto o aspecto social do cultural sem o risco de que um dos dois se debilite.
Por mais que trate de me concentrar no ato de interferir numa imagem preexistente, não consigo desprender-me totalmente de minha formação acadêmica. Por isso pintei com adolescentes de rua e pintaria com qualquer segmento social que fosse carente de toda noção artística.
Sei que um resultado plástico que permaneça, uma estética que nos identifique só pode ser consequência de um ato social, não de um isolamento intelectual.
Por outro lado, se pensasse somente no aspecto social deste projeto, começaria por perguntar-me que direito tenho eu de tirar estes rapazes da rua, de “recuperá-los” para que? para nosso consumismo paranoico? para nosso embrutecimento eletrônico? para nossa vergonhosa covardia?

Juan J. Balzi, 1997

 

 
 
"Ver para pintar"
os "Meninos de Arte" visitam os museus de Sao Paulo
 
 

 

A PIRÂMIDE E O JOGO DE XADREZ

Na quarta feira 23 p.p., durante a visita aos adolescentes infratores da Fundação C.A.S.A. em Franco da Rocha, ficou provado, pela centésima vez para mim, que as ideias de Gilberto Freire, Darcy Ribeiro, Lucio Costa, Ernesto Sábato e também de quem sabe quantos educadores anônimos que só se guiaram pela sua intuição e pela sua consciência, não são utopias e que o ser humano ainda pode ser salvo do perverso sistema social no qual agoniza hoje. É só se lembrar de como foi construída a maior das pirâmides do Egito: 84.000 pessoas trabalhando durante 25 anos desde a base. É só lembrar de como o inventor do jogo do xadrez acabou com a colheita do imperador: ele pediu como pagamento um grão de arroz multiplicando-se por cada casinha do tabuleiro em uma progressão geométrica.
Eu era dos que creiam que por cada grão de areia que a gente bota, a onda do mar leva milhões, mas a minha experiência em ARTEDUCAÇÃO me fez ver o seguinte: do milhar de adolescentes carentes ou de rua que eu atendi, pelo menos dois, Maciel e Moises estão realizando oficinas com adolescentes carentes ou infratores. Será que por sua vez eles não vão conseguir “mudar a cabeça” de mais dois cada um?

Quarta feira passada eu vi esses rapazes da antiga FEBEM, felizes por ter tido a CHANCE de nos mostrar que eles podem fazer outras artes que não são as de roubar ou traficar, eu vi seus olhos esperançosos e agradecidos por termos nos identificado com eles, por terem descoberto que possuímos a mesma identidade de classe e que portanto podem construir seu destino da mesma maneira que eu construí o meu. Eu ouvi um deles ler uma poesia de Walt Whitman e então o dia tornou-se mágico e eu assisti ao milagre da redenção. E fui feliz, me senti em casa, aconchegado.

Juan J. Balzi
São Paulo 28 de setembro de 2009

 
 

 

Para aqueles alunos com particular vocaçao para as artes, foram dadas bolsas para escolas de arte

(caso Moises Patricio)

 
 
 

 

 

 
 

ALUNOS PARTICULARES

 

Maria da Graça Machado de Souza
“Pacaembu”, 1995
Estudo de equilíbrio cromático
Óleo s/ tela, 46x33
Martine Castelo Branco Sampaio
“Museu 5”, 2012
Óleo s/ tela, 30x40

 

No seu estúdio do bairro de Pacaembú, Balzi tem formado ou ajudado a se aperfeiçoar artistas e pessoas de diferentes idades. Ele parte da base que todos os seres humanos têm sensibilidade plástica; trata-se então de identificar a pessoalidade de cada um e dar-lhes os conhecimentos que necessitem para desenvolvê-la, sejam estes académicos ou, inclusive, da metodologia “Meninos de Arte”.

 

Biba Rigo
“Havaner”, 2011
Técnica mista e colagem s/ papel, 30x45

 

Bel Miller
“Cantarolando em Copacabana”, 2010
Acrílica colagem e Aquarelável s/ madeira, 79x63

 
 

Patricia Trigub (Buenos Aires)
“El ruso. Modelo para armar”, 2011
Colagem s/ madeira

 
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